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Supersalários para presidente e diretores superam R$ 260 mil na Celesc

Cleicio Poleto Martins, presidente da Celesc, recebeu mais de R$260 mil em julho
Foto: Divulgação/Celesc

“A gente se sente muito prejudicado. Ligamos pedindo socorro para a Celesc e nada”. O desabafo é da comerciante do Rio Tavares, no sul de Florianópolis, que ficou três dias sem luz na semana passada e perdeu todos os produtos do refrigerador do mercado destinados à venda.

Evelyn Fraga, de 28 anos, é uma entre as 1,5 milhão de pessoas que ficaram às escuras no maior episódio de desabastecimento de energia elétrica de Santa Catarina. Na mesma semana que Evelyn contabilizou um prejuízo de R$ 3 mil reais, o diretor presidente da Celesc está embolsando um valor 86 vezes maior: o contracheque de Cleicio Poleto Martins no mês de julho deve fechar em mais de R$ 260 mil reais.

Cleicio Poleto Martins, presidente da Celesc, recebeu mais de R$260 mil em julho
Foto: Divulgação/Celesc

Todos os meses, Poleto Martins recebe R$ 46.033,36 para presidir a Celesc. Em julho, a empresa pagou a Participação de Lucros e Resultados (PLR) para os 3.386 servidores. Para os membros da diretoria, o salário chega a ser multiplicado por 6. No caso de Cleicio, a multiplicação representa o montante de R$ 276.200,16.

“Essa remuneração da diretoria é absurda. Não é compreensível um valor desses”, diz Paulo Horn, servidor da Celesc que preside o Sindicato dos Eletricitários do Norte de Santa Catarina (Sindinorte). A multiplicação de salário por 6 se restringe aos membros da diretoria. Para os servidores, o critério de distribuição da participação nos lucros é diferente. Em média, os servidores recebem o salário multiplicado por 1,6.

Além de Poleto, outros cinco executivos integram a diretoria da Celesc com salário bruto mensal de R$ 38.799,55. Sob o critério exclusivo dos diretores que podem ter os salários multiplicados por 6, os seis membros da diretoria terão, juntos, a soma de R$ 1.440.186,66 no mês de julho.

O sistema de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) costuma ser aplicado como ferramenta de gestão para estimular a empresa a cumprir as metas. Nesse modelo, os servidores recebem um acréscimo no pagamento conforme o desempenho das equipes. O cientista político Eduardo Guerini, que é professor da Univali, diz que o método é um modelo eficaz de gestão. “Várias companhias transnacionais, multinacionais, globais indicam isso como uma política de recursos humanos muito desenhada e delineada para garantir resultados positivos e eficácia na gestão”, diz.

Apesar dos supersalários dos diretores não apresentarem ilegalidade, os valores chocam pela desproporção. O montante de R$ 1,4 milhão para 6 pessoas chama a atenção num mês em que o Estado ainda contabiliza os prejuízos causados pelo ciclone bomba no dia 1º de julho, que ocorre em meio a uma pandemia com efeitos econômicos. “É um absurdo. Ontem ficamos sem luz de novo. Aqui precisam colocar um transformador maior porque a rua cresceu e não dá conta, mas não fazem”, diz Fraga. “E pra onde vai esse dinheiro todo?”, questiona. A reportagem buscou os contracheques do mês de julho para identificar o valor exato a ser recebido por cada diretor, mas os arquivos ainda não foram disponibilizados no Portal da Transparência.


Supersalários são casos de ‘luxury parking’, diz especialista

“É surreal”, diz o cientista político Adriano Gianturco ao comentar sobre os números que retratam a remuneração da equipe diretiva da Celesc.

O autor do livro ‘A Ciência Política – uma introdução’ diz que a situação é típica do conceito de ‘luxury parking’ (estacionamento de luxo, em português), que consiste em indicar apadrinhados em cargos estratégicos do governo. “Existem poltronas à disposição para os políticos colocarem os próprios homens, os que ajudaram ele a chegar lá”, diz.

No caso da Celesc, empresa de sociedade anônima, as indicações para a diretoria são feitas pelo acionista majoritário, que é o Governo do Estado, detentor de 50,18% do controle acionário da empresa.


O que diz a Celesc

O nd+ solicitou entrevista com a diretoria da Celesc. Além dos critérios para remuneração, a reportagem buscou identificar os motivos das oscilações nos demonstrativos financeiros da empresa, que registrou superávit sucedido de prejuízo. A comunicação da empresa informou que as equipes estão voltadas para a reconstrução dos danos causados na rede elétrica e enviou notas de esclarecimento sobre os assuntos levantados.

“A política salarial e de benefícios da empresa está implementada há muitos anos e é discutida de longa data junto aos sindicatos, empregados e diretoria através de Acordo Coletivo de Trabalho – ACT, bem como com o Conselho de Administração”, diz trecho da nota.


Conforme a nota, a empresa teve o melhor resultado da história em 2019, com incremento de 72% do lucro líquido em relação ao ano de 2018 e foi eleita como a melhor distribuidora de energia elétrica do país em pesquisa da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).








Fonte: Michel Teixeira