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Na Itália há dois anos, casal do Oeste diz que isolamento é vital para conter coronavírus

Adriano e Francieli Bortoli contam rotina no país europeu e pedem que brasileiros deixem contatos afetivos para outro momento

“A diferença que a gente sentiu do sistema de saúde do Brasil para cá é muito superior, e olha o aperto que a gente está passando. Então, o quanto antes a própria população tomar consciência, evitar circular desnecessariamente, vai ajudar bastante”. A orientação do brasileiro Adriano Bortoli, que está na Itália com a esposa Francieli Bortoli, reforça a importância do isolamento para evitar a proliferação do coronavírus (Covid-19).

Os ex-moradores de Ponte Serrada moram há quase dois anos no país europeu. Eles estão confinados, dentro de casa, desde a determinação de quarentena imposta pelo governo. O casal mora em Desenzano del Garda, cidade de 28 mil habitantes que fica a cerca de 100 quilômetros de Milão. Adriano e Francieli contam ao Oeste Mais detalhes da realidade que encaram com a pandemia da doença.


Até esta quinta-feira, dia 19, a Itália registrou mais de 3,4 mil mortes – número superior aos óbitos na China. Em contrapartida, 4.025 pessoas já foram curadas. Mas o país ainda contabilizava mais de 28 mil casos. Do total, segundo Adriano, cerca de 12 mil pessoas estão sendo tratadas em casa, isoladas. Outros 14 mil pacientes seguem internados em hospitais, mas com quadro estável, e mais de duas mil pessoas estão na UTI. Há 61 casos onde o casal mora. São seis mortes.

Adriano e Francieli estão há quase dois anos na Itália (Foto: Arquivo Pessoal)

O isolamento tardio pode ser um dos fatores do agravamento da doença no país. Adriano conta que há cerca de um mês houve as primeiras recomendações, mas a quarentena só foi realmente determinada depois de mais de uma centena de mortes. “Depois de uns 15 dias, [o governo] vendo que não teve o resultado esperado, baixou um decreto para o pessoal ficar em casa, recluso”, conta.

“É permitido sair a pessoa que vai trabalhar, no caso de farmácia, mercado e algumas fábricas. Você faz uma autocertificação, preenche um documento que tem um modelo disponível na internet, com o motivo pelo qual está saindo”, explica Adriano, que trabalha em uma empresa de restaurantes de comida tipicamente brasileira. Atualmente, as duas unidades estão com as portas fechadas. “São vinte e poucos funcionários nos dois restaurantes, todo mundo parado, bastante coisa de comida já foi fora”, relata.


Recomendações

Advogada, a esposa Francieli recomenda reclusão total para evitar o contágio. “Não se trata de você imaginar que não está nos fatores de risco porque é jovem, tem saúde. Se trata das pessoas que você tem contato, pai, mãe, vô, vó. Essas pessoas precisam estar em segurança, não podem contrair esse vírus, porque a gente não sabe como ele vai reagir. Você não pode imaginar, acreditar e ir nessa onda de que só está matando velho, porque não é real. Hoje [quarta-feira] morreu um médico de 57 anos, que aparentemente não tinha nenhuma doença pré-existente. Então não se sabe por que foram a óbito essas pessoas”, alerta.

O casal seque a risca as orientações do governo italiano. Não sai de casa o dia todo e foi apenas uma vez ao mercado desde o início oficial do período de quarentena. No entanto, lembra que mais de 43 mil autuações já foram aplicadas contra pessoas que não comprovaram por que estavam nas ruas. Além de sanções, quem descumpre as determinações está sujeito à prisão.


Isolamento pode ser prorrogado

A quarentena está prevista para durar até o dia 3 de abril, mas Adriano estima que o número de casos ainda não chegou ao ápice e há chance de prorrogação da medida. “A gente vai ter uma noção daqui umas duas semanas, talvez no final do mês, início do outro, se todas essas medidas e restrições vão realmente ter funcionado”, avalia.


O primeiro-ministro Giuseppe Conte afirmou nesta quinta-feira que o país deve mesmo estender a quarentena para além de 3 de abril. Ele disse ao jornal "Corriere della Sera" ser inevitável que as medidas tenham que ser mantidas por mais tempo, mas não apontou prazo.

Casal está em quarentena, confinado dentro de casa (Foto: Arquivo Pessoal)


Notícias falsas

A exemplo do que acontece em muitos outros países, Adriano lamenta o sensacionalismo nas redes sociais, especialmente no WhatsApp, e desmente uma informação que chegou ao Brasil na quarta-feira, dia 18, com muitos veículos repercutindo uma publicação feita pelo jornal inglês The Telegraph, de que a Itália estava prevendo deixar pacientes com mais de 80 anos morrerem.

“Isso é falsidade total. O que está acontecendo é que aqui na nossa região tem risco de faltar leitos. Só que eles estão tomando medidas nesse sentido. Tem aqui, por exemplo, os Alpinos. Eles estão fazendo os hospitais de campo, que é tipo uma instalação feita nos tempos de guerra. Porque no ritmo que estão crescendo os casos, pode vir a faltar quartos, leitos”, argumenta.

Segundo o brasileiro, também já foram construídos novos hospitais, além da liberação de espaço em hotéis para pessoas que se recuperaram da doença e precisam ficar em observação. Doações milionárias, em euro, de pessoas famosas, empresários e empresas, também são frequentes. A própria China tem ajudado bastante com apoio médico e equipamentos.


Vítimas de todas as idades

Apesar de a maioria das vítimas ser idosa, há mortes de pessoas bem mais jovens no país, na faixa de 30, 40 e 50 anos de idade, que não necessariamente eram portadoras de doenças crônicas e faziam parte do grupo de risco. “Não é que vai matar só aquela pessoa que tem algum problema. Não é só uma gripe, então tem que se cuidar”, alerta Adriano.


“Não dá para ficar nessa onda de que ‘não está aqui ainda’, ‘na minha cidade tem poucos casos’. Cada pessoa tem que ter consciência e se isolar. Não receber pessoas, evitar aperto de mão, abraço, beijo, deixar para outro momento, depois que a gente sair dessa fase”, sugere Francieli.


Fonte: Oeste Mais 

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