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Com uma das menores filas do país, SC tem 473 pacientes à espera de transplantes

Programa de transplante de SC é referência

Raphael passou por dois transplantes em 15 dias(Foto: Gabriel Lain/DC)

A oportunidade de continuar vivo é o maior anseio de quem aguarda na fila por um transplante. As palavras são do representante comercial, Raphael Francisco Thiesen, de 52 anos. No Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago (HU), em Florianópolis, ele se recupera do procedimento cirúrgico que passou há um mês, exatamente, quando recebeu um novo fígado, o segundo em menos de 15 dias.

— O primeiro foi no dia 13 (maio), mas tive um coágulo. Então precisei fazer outro transplante de urgência - conta.
Agarrado na sua fé, lembra de quando descobriu os problemas de saúde em dezembro de 2017. Na época, não deixou de trabalhar, mas acrescentou uma agenda médica à sua rotina: procurou profissionais para assisti-lo e iniciou o processo de tratamento para cirrose hepática. No mesmo tempo, e com a realização de novos exames, recebeu o diagnóstico de um câncer agressivo no fígado. Confiante, não se deixou abater.

— Fui encaminhado para fila de transplantes como prioridade. Conversei com todos profissionais da saúde para melhorar a minha performasse, minha recuperação. O que podia fazer para tornar o processo mais rápido, para ajudar quem estava me ajudando, eu fiz. Foram 60 dias de espera, um pouco menos, calcula o transplantado.
Nesse tempo, Raphael integrou a lista de espera do Estado. Em Santa Catarina são 473 pessoas registradas para transplante no primeiro trimestre deste ano. Se comparado com o mesmo período nos últimos dois anos, houve um acréscimo: em 2018 havia 407 candidatos até março e em 2017 eram 386. Já se levar em consideração os últimos 11 anos, o número reduziu mais do que pela metade: em 2008 o estado acumulava um total de 1.202 candidatos a transplante.
De acordo com o coordenador da SC Transplantes, Joel de Andrade, o Estado tem uma das menores filas de transplante de todo o país.

— Conseguimos evoluir muito, especialmente nos programas de córnea, de rim e fígado, que são o tecido e órgãos doados, mais frequentemente utilizados no nosso meio - diz o médico.

Em todo o Brasil o número chega a 33.984 candidatos, conforme números contabilizados até março deste ano. Disparado na frente com o maior número de pacientes que necessitam de transplante, São Paulo registra 15.701 candidatos. Depois estão os estados de Minas Gerais, com 4.057 e Rio de Janeiro, com 2.261. Já em relação ao sul do país, Santa Catarina também tem número inferior que o Rio Grande do Sul, que registra 1.319 pessoas. O Paraná não apresentou números em 2019, segundo estatística do Registro Brasileiro de Transplantes.

Conforme o coordenador, a situação em Santa Catarina é bastante privilegiada em relação aos números, em grande parte pela efetividade do sistema de doação, que permite que os pacientes saiam da lista de espera.

— Mas também a gente tem que ter um olhar crítico e analisar como está sendo o acesso dos pacientes aos serviços de transplantes e o seu ingresso em fila. É possível que em algum programa específico a gente tenha alguma dificuldade nesse trâmite e, ao contrário de representar uma evolução, representa algo que precisa ser melhorado, mas de modo geral, a leitura que se faz é um número muito bom - conclui o coordenador.

Entre os 473 pacientes de Santa Catarina, 28 estavam na fila por um fígado, como Raphael. O tempo que esperou, mesmo sendo parte do quadro de prioridades, não é o mesmo para todos os pacientes que precisam de novos órgãos ou tecidos (como a córnea). Alguns aguardam meses, outros poucos dias ou até horas. E isso ocorre porque a dinâmica de distribuição, embora nem sempre compreendida por quem espera, depende muito de compatibilidade, entre outras regras técnicas.

Ainda, segundo o coordenador do programa, um sistema informatizado recebe as informações e compara os dados do doador com os do receptor, entre outras variáveis.

— Cada órgão tem seu conjunto de informações técnicas para direcionar a fila de distribuição. A córnea é fila indiana, porque não demanda compatibilidade sanguínea, exemplifica o médico.
Diagnosticada a necessidade de transplante, uma senha é gerada para o paciente, que entra para a lista de espera: um atrás do outro, salvo as prioridades, como crianças e casos de urgência. Os demais órgãos, ao contrário, dependem de fatores específicos. Para o fígado, o coração e os pulmões, por exemplo, são quatro filas diferentes, conforme tipo sanguíneo: O, A, B e AB. Ainda existem as situações clínicas e os fatores individuas.

E é todo esse processo que precisa ser esclarecido, segundo sugere Raphael, para que outras vidas sejam salvas.

— A gente precisa de mais campanhas. A sociedade precisa se envolver, conhecer mais e entender o que é um transplante, para ter uma visão diferente, apela e acrescenta: Eu só tenho a agradecer aos que me ajudaram. A pessoa que reclama é porque não entende o contexto, a complexidade e o envolvimento dos profissionais para fazer esse tipo de procedimento.

A lista de espera

O andamento da fila dos transplantes é diferenciado para cada órgão:

Córnea

*A fila da córnea é indiana, salvo prioridades:
*Crianças
*Casos de urgência: olho furou por acidente ou houve rejeição na córnea transplantada e precisa de um novo transplante

Fígado

*Tipo sanguíneo.
*Urgência de transplante: definido através da equação da gravidade, denominado “Model for End-stage Liver Disease” (Meld). As variáveis encontradas com a equação revelam uma estimativa do risco de óbito se o transplante não for feito dentro dos três meses seguintes.
*Situações clínicas: deterioração da função do fígado (insuficiência hepática aguda)
*Prioridades: crianças ou rejeição do órgão anterior transplantado

Coração

*Tipo sanguíneo
*Peso do paciente: o porte físico é uma das variáveis mais importantes para o transplante desse órgão

Pulmão

*Tipo sanguíneo
*Altura do paciente: a caixa torácica deve ter tamanho compatível com o pulmão que vai receber

Rim

*A fila de espera depende unicamente de compatibilidade
*É tipificado geneticamente: o sistema procura o primeiro mais compatível e, assim, sucessivamente *Criança tem prioridade, depois de confirmada a compatibilidade

Fonte: NSC