quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A fome e o preconceito batem a porta dos haitianos que moram em Joaçaba

Gisele observa a filha Iudimia, a pequena nasceu com microcefalia. (Fotos: Portal Éder Luiz)
A mensagem de áudio chega por volta das 23h. Quem envia fala com dificuldades o português, mas é fácil entender algumas palavras – não tenho nada e fome. A voz na mensagem é de uma mãe, haitiana, com o filho pequeno, ainda na fase de amamentação, sentindo muita fome e com dificuldades para amamentar.

Pare de ler este texto aqui por alguns segundos! Tente pensar nesta situação e se colocar no lugar de quem enviou a mensagem, lembre que a cor da pele dela é negra. Se não conseguir, pare de ler a reportagem.

Se quer continuar, saiba que já começamos com um pedido de ajuda! Existem seres humanos passando fome em Joaçaba. Por que? Simplesmente por que não encontram trabalho para se sustentar na terra onde foram convencidos a acreditar que poderiam ter uma vida mais digna.

Esta reportagem trata sobre os imigrantes que hoje moram em Joaçaba e vários municípios da região. Guardadas as proporções da época e de condições, seguem a mesma motivação de nossos antepassados italianos, alemães, austríacos, entre outras outros povos que por aqui aportaram fugindo da fome e da falta de condições de vida em seus países, lembro novamente que apenas a cor da pele é diferente. Os primeiros imigrantes fizeram exatamente o que fazem hoje os haitianos quando vem em busca do trabalho para viver e sustentar suas famílias, que ficaram em um país arrasadas pela fome, miséria e outros flagelos.

Bebês brasileiros drama de haitianos

Em Joaçaba, acompanhamos a coordenadora do Centro de Referência em Assistência Social (CRAS), Sandrine Pizzoni, em uma visita a duas moradias deste imigrantes, no bairro Santa Tereza. A mensagem relatada no começo da reportagem foi enviada para Sandrine.

Em uma das casas em que vivem os haitianos encontramos uma situação que é muito comum. Solidários, eles moram em grupos nas residências, os que estão em busca de trabalho e geralmente um ou dois que estão empregados. Cabe aos que tem uma renda ajudar os demais que buscam a ocupação. Ele sobrevivem com pouco, em muitos casos, ficam dias sem comer para economizar na alimentação. “São muito solidários entre eles. Se ajudam com o aluguel e comida, mas muitas vezes ficam no limite para poder sobreviver”. Revela Sandrine.

Marie, de 23 anos, diz que está muito difícil conseguir emprego. Ela é mãe da pequena Anaica, de três meses, e de um menino de 1 ano, que já frequenta a creche. Poucas são as condições para ambos. Marie revela que está no Brasil há dois anos e que não pensa em desistir de achar um emprego e dar uma vida digna aos pequenos.

Marie com a pequena Anaica. Ela quer trabalhar para
dar uma vida melhor aos filhos pequenos.


Na mesma casa, mas no andar de baixo, moram mais 6 haitianos. Entre eles está Gisele, que encontramos do lado de fora da casa, improvisando no chão uma assadeira, com um pouco de carvão, uma pequena grelha e sobre ela dois pedaços de frango. É o almoço que ela vai dividir com Marie.

Gisele é mãe da pequena Iudimia, de poucos meses de vida e que tem microcefalia, doença em que a cabeça e o cérebro das crianças são menores que o normal para a sua idade, o que prejudica o seu desenvolvimento mental, já que o cérebro é impedido de crescer e desenvolver suas capacidades normalmente.

A pequena está sendo acompanhada e frequenta a Apae de Joaçaba. Quando a vimos no berço, a bebê dormia tranquila, mas nos comove saber que a limitação que tem poderá fazer ela passar por mais dificuldades que a mãe.

A mãe que citamos no começo da reportagem também mora no bairro Santa Tereza, foi abandonada pelo pai de seu filho, que partiu para buscar trabalho em outro país e não deu mais notícias. Após o apelo ela recebeu alimentos na manhã desta quarta-feira, 07.

O preconceito

Homens, mulheres, crianças, todos sofrem com a fome, mas acima disso está o preconceito. Quase ninguém visita os haitianos para ajudar ou saber se precisam de algo. A coordenadora do CRAS, revela que a cor da pele faz com que muita gente os deixe mais à margem ainda.

“Em primeiro lugar acredito que temos que deixar do preconceito, nossa sociedade é muito preconceituosa. Mas basta conhecer eles um pouco melhor para ver que não promovem baderna, não andam sujos, não se vê eles nas ruas bebendo, pedindo esmolas, brigando. Nunca se vê eles nestas condições”. Comenta Sandrine Pizzoni.

Hora de ser solidário

O CRAS tem cadastrados 86 haitianos que residem em Joaçaba e que são atendidos de alguma forma, entre eles, estão entre 13 e 15 bebês, com idade de no máximo 2 anos. Outro dado que preocupa é o fato de as mulheres terem maior dificuldades em conseguir emprego, com apenas duas em ocupações.

Para amenizar a fome e trazer mais dignidade, especialmente nesta época de Natal, onde somos chamados a solidariedade, o CRAS está realizando uma campanha com o único objetivo de arrecadar alimentos a estas famílias necessitadas.


Os alimentos poderão ser entregues no CRAS, que fica na rua Papa Pio XII, bairro Cruzeiro do Sul em Joaçaba, até o dia 18 de dezembro. No caso de cestas básicas ou uma quantidade expressiva de itens que a pessoa não tenha como entregar, uma equipe pode coletar as doações. O telefone do CRAS é o 3522-4548. O horário de Atendimento é das 7h30 às 19h, sem fechar ao meio dia.

Fonte: Portal Éder Luiz

Nenhum comentário:

Postar um comentário